Carta Aberta às Estrelas Veladas
- Vesta N.O.X.

- 17 de jul. de 2022
- 4 min de leitura
Publicado originalmente na edição de Inverno 2022 da Revista 777

A aurora do novo aeon é longa e seus ordálios extensos. Desconstruir um pensamento cultural é tarefa árdua que requer indivíduos dispostos. Primordialmente, é preciso superar o afã adolescente de considerar a Verdadeira Vontade e a Lei de Thelema como um exercício narcisista onde o indivíduo está acima do coletivo. Não se trata disto. Quando dizemos "Faz o que TU queres" a escolha da segunda pessoa do singular não é arbitrária. Ela denota precisamente que:
Há reconhecimento radical da liberdade do Outro;
Somos responsáveis pelo caminho da construção de nossa existência plena neste mundo;
A Verdadeira Vontade necessariamente reverbera positivamente na sociedade de forma que os valores do Novo Aeon incluem um reconhecimento da importância da coletividade;
Apenas alcançar a própria liberdade e o exercício da própria Verdadeira Vontade não é suficiente. É intrínseco ao processo uma transformação da sociedade como um todo e o avanço da humanidade para uma aproximação cada vez mais latente dos ideais de Luz, Vida, Amor e Liberdade.
Dessa maneira, o rompimento com valores culturais retrógrados se mostra uma tarefa de suma importância e, talvez além: a primeira tarefa. Pois a partir deste rompimento, podemos construir novos valores que tem o potencial de promover uma vida alinhada à Lei a muito mais indivíduos, estejam eles cientes ou não do processo.

Por estarmos no aeon do deus da guerra, este fazer não é suave, nem tampouco transicional. Por isso, o padrão de rompimento -> reconstrução, evocando a natureza do Atu XVI, A Torre, em seu potencial radical de liberar espaços e abrir caminhos. Sendo assim, devemos então ativar a nossa coragem tanto de levantar essa bandeira, quanto de pegarmos nós mesmas os martelos demolidores e retroescavadeiras. Acredito que estamos todas cientes disto.
Mas e depois?
Depois precisaremos também ter coragem de construir. Para além, eu diria que entre o Atu XVI e o Atu XX (O Aeon) há um ciclo intermitente e concomitante. Não adianta querermos derrubar todas as torres de uma única vez. O mais provável é que este seja um processo ininterrupto na história dos aeons e que, ao derrubarmos uma torre, precisemos imediatamente sermos sujeito da construção da nova estrutura que vai ocupar o vácuo deixado ali, atuando em todas as etapas do processo - de esperança (Atu XVII, A Estrela), medo e confusão (Atu XVIII, A Lua), clareza (Atu XIX, O Sol) e o encontro de novos caminhos (Atu XX, O Aeon) - enquanto Mulheres do Novo Aeon e de todos os Aeons.
Eis o ponto crucial deste texto: a convocação das mulheres. Saiam da sombra! Passou da hora de abrirmos as cortinas e deixarmos a luz entrar. De confiarmos no nosso potencial. De ativarmos o ímpeto, o fogo, o caráter marcial e jupiteriano de nossos mapas astrológicos para tomarmos a dianteira desse reconstruir. Ou estaremos fadadas a viver no limbo cultural, na eterna insatisfação. Pior ainda, deixaremos que os anacrônicos (velho-aeônicos) encontrem brechas para reconstruir as velhas torres! E assistiremos em choque, como aliás vem acontecendo, enquanto nos lamentamos pelos cantos dos fóruns online... caindo em desgraça enquanto Mulheres…
…Escarlates? Nem sempre. Aliás, passou da hora de reconhecermos que quando falamos da

Mulher Escarlate e da Besta estamos falando de uma fórmula mágicka e não das fêmeas e machos da espécie humana. Assim como quando falamos das polaridades feminina e masculina não estamos falando de indivíduos nem muito menos encaixando pessoas em características limitantes - sobretudo as mulheres, que nesta dinâmica ficam atreladas ao papel histórico de "passivas", "receptivas", "dependentes" e, consequentemente, relegadas à segunda classe no processo iniciático. Convenhamos, que retrógrado!
No meio thelêmico se convencionou à mulher este lugar de representante (de uma visão rasa e em muitos momentos distorcida) do princípio feminino, daquela que serve, que é portal do magus, que é par do homem e alienada de sua agência enquanto Adepta, que tem seu valor em certos meios diretamente atribuido à seu capital erótico. Portanto, não é surpreendente que a atuação das mulheres tenha sido, majoritariamente, coadjuvante. Junte-se a isto o fato de as grandes mulheres da história de Thelema serem veementemente ignoradas e/ou terem sua relevância apaga e diminuída e temos um cenário desolador.
No entanto, foi e é assim em todos os campos de uma sociedade patriarcal. É preciso mesmo estar com a faca nos dentes para decidir enfrentar o status quo ocultista. Dificuldades reconhecidas, é também um fato que já passou da hora. É preciso exercitar com afinco a Assunção de Forma-Deus de Ra-Hoor-Khuit até que entendamos que o sol dentro de nós é também capaz de brilhar intensamente e chegar a insights verdadeiramente revolucionários. Somos Estrelas em nosso próprio direito. Chegou o tempo de arregaçarmos as mangas e irmos ao trabalho hercúleo de mudar de vez o curso do Aeon, apontando-o para uma vivência espiritual cada vez mais radicalmente pautada na equidade.
Isso significa escrevermos nossos próprios artigos, estudos, registros de experiências mágickas, ritos e até mesmo Libri. Significa propormos reformas e a criação de Ordens, Ecclesias, grupos de estudos e demais organizações que sejam pautadas em valores mais igualitários e destinadas a serem faróis, guiando os demais nessa reinvenção cultural.
Obviamente escrever é mais fácil do que de fato fazer. Mas se no princípio é o verbo, que seja este a chama que precisava existir para incendiar seu coração e tirar do lugar cômodo da reclamação e nada mais. Produza! Seja todos os dias a mudança que você prega! Diga não à submissão e questione homens que se dizem thelemitas mas insistem em negar às mulheres o reconhecimento de seu ser-Estrela. Proponha novos olhares e interpretações a absolutamente tudo. Pois tudo em Thelema até aqui foi historicamente interpretado e construído quase que unicamente pelo viés do homem branco e abastado e chegou o tempo de revolucionarmos em absoluto toda a epistemologia existente. Crie, teste, compartilhe e fortaleça ritos nos quais há absoluta igualdade entre oficiantes, seja qual for o sexo destes.
Será assim, torre por torre, que nos colocaremos e criaremos autonomia não só para nós mas para todas ao nosso redor. Em que sairemos do Atu XII (Pendurado) em seu lado negativo - impotente e inerte- para vivermos o pleno sucesso de uma grande egrégora feminista do Novo Aeon, uma confluência de todas as Estrelas rumo à evolução espiritual e construção das Grandes Obras, benéficas para toda a sociedade e plenas de Amor.







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